top of page

Câncer de Pâncreas

É possível curar o câncer de pâncreas, mas isso depende de um fator central: o tumor poder ser completamente removido pela cirurgia. A ressecção cirúrgica associada à quimioterapia é, até hoje, o único tratamento com potencial curativo conhecido para essa doença [1].

Por que apenas a cirurgia pode curar?

Quimioterapia e radioterapia têm papéis importantes no tratamento, mas nenhuma dessas abordagens, isoladamente, elimina a doença de forma definitiva. A combinação entre ressecção cirúrgica completa do tumor e quimioterapia é, até o momento, o único tratamento com potencial curativo para o câncer de pâncreas [2].


É por isso que, diante de um novo diagnóstico, a primeira pergunta que guia todo o planejamento é se aquele tumor específico tem condição técnica de ser retirado.

Por que tão poucos pacientes chegam à cirurgia?

O câncer de pâncreas raramente causa sintomas nas fases iniciais. A doença evolui de forma silenciosa, e sinais como icterícia (pele e escleras amarelas), perda de peso sem causa aparente e dor abdominal, quando aparecem, surgem frequentemente já em um estágio mais avançado, quando a janela para a cirurgia curativa pode ter se estreitado ou fechado.


Como consequência direta dessa natureza silenciosa, apenas 15% a 20% dos pacientes têm doença ressecável no momento em que o diagnóstico é feito [3, 4]. Essa é uma das razões pelas quais o câncer de pâncreas continua sendo uma das doenças oncológicas de maior desafio clínico, não porque a cirurgia não funcione, mas porque a maioria dos pacientes não chega a ela em estágio favorável.

O que o estágio muda? 

Os números abaixo vêm de estudos populacionais com dezenas de milhares de pacientes acompanhados ao longo de décadas, e mostram com clareza o que o estágio do diagnóstico e a possibilidade de cirurgia significam na prática.

Em análise de 84.275 pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático registrados no banco de dados SEER (National Cancer Institute, EUA), a sobrevida real em cinco anos foi de 31,7% nos tumores em estágio IA e caiu para apenas 0,5% nos tumores em estágio IV - doença já espalhada para outros órgãos [5].


O mesmo estudo revelou o impacto direto da cirurgia ao longo do tempo: entre os pacientes que conseguiram ser operados, a sobrevida real em cinco anos subiu de 1,5% para 17,4% ao longo do período analisado. Entre os pacientes que não conseguiram operar, esse número praticamente não se moveu, permaneceu entre 0,8% e 0,9% no mesmo intervalo [6].


Esses números contam uma história inequívoca: os avanços médicos das últimas décadas melhoraram de forma expressiva o resultado de quem consegue chegar à cirurgia. Para quem não consegue, o progresso foi mínimo. É justamente por isso que identificar se a cirurgia é possível — e como torná-la possível quando inicialmente não é — é a questão mais importante de todo o processo de tratamento.


Um segundo estudo, também com dados do programa SEER, confirma essa tendência com dados mais recentes: a sobrevida global em cinco anos para o câncer de pâncreas passou de 6% em 2004 para 12% em 2015. No mesmo período, pacientes com doença ainda localizada no pâncreas viram sua sobrevida em cinco anos subir de 24% para 46%. Já entre pacientes com doença metastática, o número avançou de 2% para apenas 3% [7].

Um avanço recente que muda o horizonte para doença metastática

Para pacientes que chegam ao diagnóstico sem possibilidade cirúrgica, ou que recaem após a cirurgia, o cenário terapêutico passou por uma mudança relevante em 2026, com resultados que chamaram a atenção de toda a comunidade oncológica.


Mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas são impulsionados por mutações oncogêicas nas proteínas RAS, o principal mecanismo molecular de crescimento desse tumor. Por décadas, a via RAS foi considerada praticamente inacessível a terapias-alvo. O ensaio clínico fase 3 RASolute 302, publicado no New England Journal of Medicine em 31 de maio de 2026, testou o daraxonrasib — um inibidor oral multiativo do RAS(ON) que bloqueia simultaneamente formas mutantes e selvagens do RAS ligado ao GTP — contra quimioterapia à escolha do investigador, em 500 pacientes com adenocarcinoma
pancreático metastático previamente tratado, distribuídos em 59 centros em seis países.


Na população com mutação RAS G12, desfecho primário do estudo, a sobrevida global mediana foi de 13,2 meses com daraxonrasib contra 6,7 meses com quimioterapia (HR 0,40; p = 4,6 × 10⁻¹¹). A sobrevida livre de progressão foi de 7,3 meses versus 3,5 meses (HR 0,45; p = 3,2 × 10⁻⁹), com 58,7% dos pacientes no grupo daraxonrasib livres de progressão aos 6 meses, contra 31,7% no grupo quimioterapia [8].


Esses resultados precisam ser lidos com o contexto correto: o RASolute 302 avaliou pacientes com doença metastática já tratada previamente, não doença ressecável. O daraxonrasib não substitui a cirurgia, que permanece o único caminho com potencial curativo, mas representa o primeiro avanço terapêutico expressivo para pacientes que não são candidatos à ressecção ou que recaem após ela. Ensaios clínicos avaliando o medicamento em primeira linha e em combinação com quimioterapia estão em andamento.

As três categorias de tumor — o que define se a cirurgia é possível

Cirurgiões e oncologistas classificam os tumores pancreáticos em três grupos, com base no grau de envolvimento das estruturas vasculares ao redor do pâncreas. Essa classificação é o que determina o plano de tratamento [9]:

 

  • Ressecável: o tumor está confinado ao pâncreas ou tem extensão limitada, sem comprometer vasos sanguíneos importantes na região. A cirurgia pode ser realizada de imediato, e essa é a situação de maior potencial curativo.

  • Borderline ressecável (limítrofe): o tumor está em contato com vasos relevantes, como a veia mesentérica superior, a artéria mesentérica superior ou a artéria hepática, de forma que a cirurgia imediata seria tecnicamente arriscada ou teria alta chance de deixar doença residual. Nesses casos, a cirurgia é potencialmente possível, mas requer preparo prévio.

  • Localmente avançado: o tumor compromete significativamente vasos da região a ponto de tornar a cirurgia inicialmente inviável. A doença ainda está restrita à região pancreática, sem metástases à distância, o que mantém, em parte dos casos, a possibilidade de tratamento com intenção curativa.

Tumor inoperável no início não é definitivo

Para pacientes com tumores borderline ressecáveis ou localmente avançados, a abordagem atual consiste em aplicar quimioterapia antes da cirurgia, chamada de terapia neoadjuvante, com o objetivo de reduzir o tumor, eliminar micrometástases precoces e selecionar pacientes com uma biologia mais favorável e que apresentem um controle sistêmico com a quimioterapia para viabilizar uma cirurgia que não seria possível de imediato.


A meta-análise mais completa disponível sobre o tema, conduzida por Van Dam e colaboradores e publicada no European Journal of Cancer em 2022, reuniu os ensaios clínicos randomizados comparando quimioterapia neoadjuvante versus cirurgia imediata em pacientes com doença ressecável e borderline ressecável. O resultado mostrou que, nos pacientes borderline, o tratamento neoadjuvante aumentou de forma significativa a taxa de ressecção com margens livres (R0) e melhorou a sobrevida global em comparação com a cirurgia realizada de imediato [10].


O ensaio clínico ESPAC-5, publicado no Lancet Gastroenterology & Hepatology em 2023, testou prospectivamente três diferentes protocolos de quimioterapia neoadjuvante versus cirurgia imediata em pacientes com tumor borderline ressecável em 16 centros de dois países (Reino Unido e Alemanha). O estudo demonstrou que a abordagem neoadjuvante foi viável e produziu taxas de ressecção comparáveis ou superiores às da cirurgia imediata, com melhor seleção dos pacientes que realmente se beneficiam do procedimento cirúrgico [11].


Um diagnóstico inicial de “não operável” não é uma sentença definitiva. É o início de um plano de tratamento que, em uma parcela relevante dos casos, abre caminho para a cirurgia.

O que significa ressecção R0 e por que essa distinção importa?

Durante o processo de avaliação e tratamento, você vai ouvir o termo “ressecção R0”. Ele descreve uma situação em que o tumor foi removido por completo, sem nenhuma célula cancerígena detectável nas margens do tecido analisado ao microscópio.


Essa distinção é um dos principais determinantes do resultado a longo prazo. Uma cirurgia que remove o tumor de forma aparentemente completa, mas deixa células tumorais nas margens (ressecção R1), tem prognóstico significativamente pior do que uma ressecção R0.


Por isso, toda a estratégia de tratamento, incluindo a decisão de fazer quimioterapia antes da cirurgia em tumores borderline, é guiada pela busca de uma ressecção R0. Em tumores limítrofes, o tratamento prévio não busca apenas reduzir o tumor em tamanho, mas aumentar a probabilidade de removê-lo completamente, com margens seguras.

O caminho prático após o diagnóstico

Estadiamento: tomografia computadorizada com protocolo específico para o pâncreas ou ressonância magnética para avaliar com precisão o tamanho do tumor, seu envolvimento com estruturas vasculares e a presença ou ausência de doença à distância. Esse exame é o que classifica o tumor em ressecável, borderline ou localmente avançado. A qualidade e o protocolo desse exame de imagem são cruciais para a decisão cirúrgica [12].


Avaliação multidisciplinar: a decisão não deve ser tomada por um único especialista. Uma equipe reunindo cirurgião especializado em pâncreas, oncologista clínico, radioterapeuta, radiologista com experiência em imagem pancreática e gastroenterologista é o padrão recomendado pelas principais diretrizes internacionais para definir o melhor caminho em cada caso [12]. No Grupo do Pâncreas no Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre, nossas reuniões multidisciplinares com a discussão de casos ocorrem semanalmente .


Decisão: cirurgia imediata (para os casos ressecáveis sem características biológicas desfavoráveis) ou quimioterapia neoadjuvante seguida de reavaliação por imagem (para borderline e localmente avançado, e em alguns centros também para casos ressecáveis com características de maior risco).


Reavaliação: durante e após o tratamento neoadjuvante, novos exames de imagem determinam se o tumor respondeu o suficiente para permitir a cirurgia.

Cirurgia: quando viável, é a etapa central do tratamento.


Quimioterapia adjuvante: após a cirurgia, o tratamento quimioterápico complementar é recomendado para reduzir o risco de recidiva, independente de ter havido ou não tratamento prévio.

Para encerrar:

O câncer de pâncreas pode ser curado. Não em todos os casos, a maioria dos pacientes ainda chega ao diagnóstico em estágio em que a cura não é possível. Mas em uma parcela crescente deles, a combinação entre cirurgia bem executada em centro especializado e quimioterapia adjuvante produz sobrevidas longas e, em alguns casos, cura definitiva.


A melhora entre o resultado de hoje e o de vinte anos atrás está, em grande parte, na melhor seleção de quem opera, na melhora das drogas quimioterapicas, no uso mais estratégico da quimioterapia neoadjuvante em tumores limítrofes e na concentração de casos em centros com volume e experiência suficientes.


Diante desse diagnóstico, o passo mais importante é buscar avaliação com uma equipe especializada em cirurgia pancreática o quanto antes. Essa avaliação detalhada vai dizer qual caminho existe para o seu caso específico.


Estou disponível para consulta presencial em Porto Alegre ou para consulta online.

  1. Mannucci A, Goel A. Advances in pancreatic cancer early diagnosis, prevention, and treatment: The past, the present, and the future. CA: A Cancer Journal for Clinicians. 2026;76(1):e70035. Epub 2025 Sep 19. DOI: 10.3322/caac.70035. PMID: 40971231.

  2. Conroy T, Pfeiffer P, Vilgrain V, et al; ESMO Guidelines Committee. Pancreatic cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Annals of Oncology. 2023;34(11):987–1002. DOI: 10.1016/j.annonc.2023.08.009. PMID: 37678671.

  3. Lybaert P, Bauters T, Schreurs WH, et al. The actual 5-year survivors of pancreatic ductal adenocarcinoma based on real-world data. Scientific Reports. 2020;10(1):16988. DOI: 10.1038/s41598-020-73525-y. PMID: 33046740.

  4. Conroy T, Pfeiffer P, Vilgrain V, et al; ESMO Guidelines Committee. Pancreatic cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Annals of Oncology. 2023;34(11):987–1002. DOI: 10.1016/j.annonc.2023.08.009. PMID: 37678671.

  5. Lybaert P, Bauters T, Schreurs WH, et al. The actual 5-year survivors of pancreatic ductal adenocarcinoma based on real-world data. Scientific Reports. 2020;10(1):16988. DOI: 10.1038/s41598-020-73525-y. PMID: 33046740.

  6. Ghaneh P, Palmer D, Cicconi S, et al; European Study Group for Pancreatic Cancer. Immediate surgery compared with short-course neoadjuvant gemcitabine plus capecitabine, FOLFIRINOX, or chemoradiotherapy in patients with borderline resectable pancreatic cancer (ESPAC5): a four-arm, multicentre, randomised, phase 2 trial. Lancet Gastroenterology & Hepatology. 2023;8(2):157–168. DOI: 10.1016/S2468-1253(22)00348-X. PMID: 36521500.

  7. Smith ZL, Cho S, Sharma N, et al. Factors Driving Pancreatic Cancer Survival Rates: Trend Analysis of the Surveillance, Epidemiology, and End Results (SEER) Database 2000–2019. Pancreas. 2025;54(1):e20–e26. DOI: 10.1097/MPA.0000000000002395. PMID: 39693556.

  8. O’Reilly EM, Wainberg ZA, Hendifar AE, et al; RASolute 302 Trial Investigators. Daraxonrasib or chemotherapy in previously treated metastatic pancreatic cancer. New England Journal of Medicine. Published online May 31, 2026. DOI: 10.1056/NEJMoa2605555.

  9. Conroy T, Pfeiffer P, Vilgrain V, et al; ESMO Guidelines Committee. Pancreatic cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Annals of Oncology. 2023;34(11):987–1002. DOI: 10.1016/j.annonc.2023.08.009. PMID: 37678671.

  10. Van Dam JL, Janssen QP, Besselink MG, et al. Neoadjuvant therapy or upfront surgery for resectable and borderline resectable pancreatic cancer: a meta-analysis of randomised controlled trials. European Journal of Cancer. 2022;160:140–149. DOI: 10.1016/j.ejca.2021.10.023. PMID: 34894481.

  11. Ghaneh P, Palmer D, Cicconi S, et al; European Study Group for Pancreatic Cancer. Immediate surgery compared with short-course neoadjuvant gemcitabine plus capecitabine, FOLFIRINOX, or chemoradiotherapy in patients with borderline resectable pancreatic cancer (ESPAC5): a four-arm, multicentre, randomised, phase 2 trial. Lancet Gastroenterology & Hepatology. 2023;8(2):157–168. DOI: 10.1016/S2468-1253(22)00348-X. PMID: 36521500.

  12. Conroy T, Pfeiffer P, Vilgrain V, et al; ESMO Guidelines Committee. Pancreatic cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Annals of Oncology. 2023;34(11):987–1002. DOI: 10.1016/j.annonc.2023.08.009. PMID: 37678671.​

bottom of page