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Quando a pedra na vesícula realmente precisa ser operada?

Pedra na vesícula é um dos achados mais comuns em exames de ultrassom abdominal e uma das dúvidas mais frequentes no consultório. A resposta para “preciso operar?” depende do que as pedras estão causando agora, do que podem vir a causar se ficarem, e de algumas características clínicas específicas de cada pessoa.

A maioria das pedras é silenciosa

Descobrir uma pedra na vesícula num ultrassom pedido por outro motivo é muito comum. Estima-se que até 80% das pessoas com pedras na vesícula nunca desenvolvem sintomas ao longo da vida, vivem com as pedras sem saber, e elas não causam nenhum problema.


Essa realidade é importante para calibrar a decisão: não existe indicação de operar simplesmente porque a pedra existe.


Um estudo longitudinal americano com 49.414 pacientes com pedras assintomáticas, acompanhados por até 20 anos, mostrou que apenas 14,5% desenvolveram algum sintoma, com mediana de seguimento de 4,6 anos. Após 10 anos, cerca de 22% tornaram-se sintomáticos — e desses, apenas 25% precisaram de algum procedimento. Isso significa que a grande maioria das pessoas com pedras assintomáticas nunca vai precisar operar, ou vai demorar muitos anos até precisar [1].


A orientação atual das principais diretrizes cirúrgicas é clara: pedra assintomática descoberta ao acaso não é indicação de cirurgia na maioria dos casos [2, 3].

Quando a pedra começa a dar sintomas

A situação muda completamente quando as pedras começam a produzir sintomas. E o sinal mais importante é a cólica biliar: dor intensa no abdômen superior direito ou na boca do estômago, frequentemente irradiada para as costas ou ombro direito, que dura de 30 minutos a algumas horas e costuma aparecer após refeições, especialmente gordurosas.


Quem teve uma cólica biliar tem grande chance de ter outra. E as cólicas não são apenas desconfortáveis, elas sinalizam que o processo inflamatório está ativo e que as complicações podem estar mais próximas do que se imagina.

Os dados mais recentes sobre o que acontece quando a cirurgia é adiada depois do primeiro sintoma são inequívocos. Em um estudo de coorte conduzido na Dinamarca, 286 pacientes com doença sintomática não complicada foram acompanhados prospectivamente. O risco acumulado de desenvolver uma complicação — colecistite aguda, colangite, pancreatite biliar ou cólica intratável exigindo cirurgia de urgência — foi de 36% em 6 meses, 55% em 12 meses e 81% em 24 meses [4].


O estudo RELAPSTONE, multicêntrico internacional com 3.016 pacientes em 18 centros de referência, confirma esse padrão por outro ângulo: entre os pacientes hospitalizados pelo primeiro episódio de doença sintomática por pedra que não foram operados durante a internação, 37% tiveram recidiva dentro do primeiro ano, e muitas dessas recidivas foram complicações mais graves do que o episódio inicial [5].


Esses dados têm uma implicação prática direta: quando a pedra já causou sintomas, adiar a cirurgia não é uma estratégia segura.

As complicações que se quer evitar

Parte de responder “preciso operar?” é entender o que acontece quando a cirurgia não é feita e a doença avança. As complicações da pedra na vesícula são mais graves, mais arriscadas e mais difíceis de tratar do que a colecistectomia eletiva.


Colecistite aguda: a pedra obstrui o ducto cístico, o canal que liga a vesícula ao ducto biliar. A vesícula fica inflamada, distendida e infectada. Pode causar febre, dor persistente, e pode evoluir para perfuração ou gangrenosa se não tratada em tempo hábil. É a complicação mais frequente e uma das principais razões para cirurgia de urgência.


Coledocolitíase: uma pedra migra da vesícula para o ducto biliar principal. Pode causar icterícia obstrutiva (pele e olhos amarelos) e dor intensa. Exige procedimento endoscópico (CPRE) para retirada da pedra do ducto, seguido de colecistectomia. O processo todo é mais complexo, mais longo e mais arriscado do que a cirurgia eletiva isolada.


Colangite aguda: infecção bacteriana do ducto biliar, frequentemente secundária à coledocolitíase. Manifesta-se com febre alta, icterícia e dor abdominal, a chamada tríade de Charcot. Pode evoluir para sepse e choque. É uma emergência médica com mortalidade relevante quando o tratamento é tardio.


Pancreatite biliar: a pedra obstrui temporariamente a saída do ducto pancreático ao passar pelo esfíncter de Oddi. Desencadeia inflamação do pâncreas que pode variar de leve, com resolução espontânea em poucos dias, a grave, com necrose pancreática, falência de múltiplos órgãos e risco de vida.


Todas essas complicações transformam uma operação que poderia ser ambulatorial, com alta no mesmo dia, em uma internação de urgência com maior risco cirúrgico, maior chance de conversão para cirurgia aberta e tempo de recuperação significativamente mais longo.

Quando a indicação de cirurgia é absoluta

As diretrizes da SAGES (Society of American Gastrointestinal and Endoscopic Surgeons) estabelecem as indicações formais para colecistectomia [6]:


Cólica biliar recorrente: o paciente já teve um ou mais episódios de dor biliar típica. Essa é a indicação mais comum e mais direta. A cirurgia eletiva deve ser programada antes da próxima complicação.


Colecistite aguda: a cirurgia laparoscópica precoce, realizada dentro de 72 horas do início dos sintomas, é o tratamento de escolha e está associada a melhores resultados do que a cirurgia tardia ou a abordagem conservadora seguida de cirurgia intervalar.


Coledocolitíase: pedra no ducto biliar, com ou sem colangite. Exige resolução endoscópica do ducto e colecistectomia subsequente para eliminar a fonte das pedras.


Pancreatite biliar: após resolução do episódio agudo, a colecistectomia deve ser realizada na mesma internação ou logo após, para evitar recorrência. Adiar a cirurgia após pancreatite biliar está associado a risco significativo de novo episódio.


Discinesia biliar sintomática: disfunção da vesícula sem pedras visíveis, com sintomas típicos confirmados por exame de função biliar. A cirurgia resolve os sintomas na maioria dos casos.

Quando operar mesmo sem sintomas — as exceções

Para a maioria dos pacientes assintomáticos, a orientação atual é observação e acompanhamento. Mas há situações específicas em que a cirurgia preventiva é recomendada:


Pedras grandes (acima de 3 cm): pedras maiores estão associadas a maior risco de carcinoma de vesícula biliar. O risco de malignidade nesse grupo justifica a indicação cirúrgica mesmo na ausência de sintomas [7].


Vesícula em porcelana com calcificações irregulares ou nodulares: a calcificação da parede da vesícula em determinados padrões está associada a risco aumentado de carcinoma. A indicação cirúrgica deve ser avaliada individualmente, levando em conta o padrão da calcificação e o risco cirúrgico do paciente.


Pacientes que serão submetidos à cirurgia bariátrica: a perda de peso rápida após a cirurgia aumenta significativamente o risco de formação de pedras — até 20,7% dos pacientes desenvolvem novas pedras no pós-operatório [8]. A colecistectomia concomitante de rotina perdeu espaço na prática atual e hoje é reservada a pacientes com pedras já presentes e sintomáticas no pré-operatório. O uso profilático de ácido ursodesoxicólico (UDCA) por 6 meses após a cirurgia tem evidência favorável na prevenção de novas pedras, embora ainda sem consenso sobre dose ideal para cada tipo de procedimento bariátrico [9, 10].

Pólipos da vesícula biliar: cirurgia é indicada quando o pólipo mede 10 mm ou mais, quando mede entre 6 e 9 mm na presença de fatores de risco (idade acima de 60 anos, colangite esclerosante primária, morfologia séssil ou etnia asiática), ou quando cresce 2 mm ou mais durante o acompanhamento por ultrassom. Pólipos menores de 6 mm sem fatores de
risco não exigem cirurgia, apenas vigilância por imagem
[11].


Pacientes imunossuprimidos ou em lista de transplante: nesse grupo, complicações biliares que seriam mane jáveis em outros contextos podem ter evolução mais grave e tratamento mais complexo. A colecistectomia profilática pode ser indicada antes do transplante ou do início da imunossupressão.

Anemia falciforme e esferocitose hereditária: a formação acelerada de cálculos pigmentares nessas condições e o risco de complicações em contexto de crise hematológica justificam indicação cirúrgica eletiva precoce na maioria dos casos.

Por que a cirurgia programada é melhor do que a de urgência

A colecistectomia laparoscópica eletiva, realizada com a vesícula sem inflamação aguda, é uma das cirurgias mais seguras e bem estabelecidas da cirurgia abdominal. Na grande maioria dos casos é realizada por laparoscopia, com alta no mesmo dia ou no dia seguinte, e retorno às atividades habituais em uma a duas semanas.


A mesma cirurgia, realizada de urgência durante uma colecistite aguda ou logo após uma pancreatite biliar, tem perfil de risco significativamente diferente: maior chance de conversão para cirurgia aberta devido à inflamação e aderências, maior risco de lesão de via biliar, maior tempo de internação e recuperação mais prolongada.


Operar eletivamente após o primeiro episódio sintomático é tratar a doença no melhor momento técnico possível.

O que esperar da consulta

A decisão sobre operar ou não a vesícula deve sempre ser baseada em uma avaliação individual. Os elementos que o cirurgião vai considerar na consulta incluem: a presença e a frequência dos sintomas, as características das pedras ao ultrassom (tamanho, número, espessura da parede da vesícula), o risco cirúrgico do paciente, as condições clínicas associadas e a preferência do próprio paciente depois de entender os dados.


Estou disponível para atendimento presencial em Porto Alegre ou por telemedicina.

  1. Morris-Stiff G, Sarvepalli S, Hu B, Gupta N, Lal P, Burke CA, Garber A, McMichael J, Rizk MK, Vargo JJ, Ibrahim M, Rothberg MB. The Natural History of Asymptomatic Gallstones: A Longitudinal Study and Prediction Model. Clinical Gastroenterology and Hepatology. 2023;21(2):319–327.e4. DOI: 10.1016/j.cgh.2022.04.010. PMID: 35513234.

  2. Morris-Stiff G, Sarvepalli S, Hu B, Gupta N, Lal P, Burke CA, Garber A, McMichael J, Rizk MK, Vargo JJ, Ibrahim M, Rothberg MB. The Natural History of Asymptomatic Gallstones: A Longitudinal Study and Prediction Model. Clinical Gastroenterology and Hepatology. 2023;21(2):319–327.e4. DOI: 10.1016/j.cgh.2022.04.010. PMID: 35513234.

  3. Society of American Gastrointestinal and Endoscopic Surgeons (SAGES). Guidelines for the Clinical Application of Laparoscopic Biliary Tract Surgery. Disponível em: sages.org/publications/guidelines/guidelines-for-the-clinical-application-of-laparoscopic-biliary-tract-surgery/.

  4. Mark-Christensen A, et al. Symptomatic uncomplicated gallstone disease is associated with a high short-term risk of
    gallstone-related complications: a contemporary cohort study. Scandinavian Journal of Gastroenterology. 2024;59(8):954–960. DOI: 10.1080/00365521.2024.2361756. PMID: 38950569.

  5. Velamázán R, López-Guillén P, Martínez-Domínguez SJ, Abad Baroja D, Oyón D, Arnau A, de-Madaria E, et al. Symptomatic gallstone disease: Recurrence patterns and risk factors for relapse after first admission, the RELAPSTONE study. United European Gastroenterology Journal. 2024;12(3):286–298. DOI: 10.1002/ueg2.12544. PMC: PMC11017764.

  6. Society of American Gastrointestinal and Endoscopic Surgeons (SAGES). Guidelines for the Clinical Application of Laparoscopic

  7. Biliary Tract Surgery. Disponível em: sages.org/publications/guidelines/guidelines-for-the-clinical-application-of-laparoscopic-biliary-tract-surgery/.

  8. Amorim-Cruz F, Santos-Sousa H, Ribeiro M, et al. Risk and prophylactic management of gallstone disease in bariatric surgery: a systematic review and a Bayesian meta-analysis. Journal of Gastrointestinal Surgery. 2023;27(2):433–448. DOI: 10.1007/s11605-022-05492-6. PMID: 36627465.

  9. Kermansaravi M, Shikora S, Dillemans B, et al. The Management of Biliary Disease in Patients with Severe Obesity Undergoing Metabolic and Bariatric Surgery — An International Expert Survey. Obesity Surgery. 2024;34(4):1086–1096. DOI: 10.1007/s11695-024-07101-y. PMID: 38400945.

  10. Marincaș AM, Coman IE, Neagu SI, et al. Ursodeoxycholic Acid Prophylaxis and the Reduction of Gallstone Formation After Bariatric Surgery: An Updated Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. PMC10790195. DOI: 10.3390/medicina60010060.

  11. Wiles R, Thoeni RF, Barbu ST, et al. Management and follow-up of gallbladder polyps: updated joint guidelines between the ESGAR, EAES, EFISDS and ESGE. European Radiology. 2022;32(5):3178–3190. DOI: 10.1007/s00330-021-08384-w. PMID: 34918177.

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